Xampu e o amargo lirismo de Roger Cruz

por Cícero Pedro Leão

No vol. 3 de Xampu, Roger Cruz novamente foge dos clichês relacionados às histórias sobre os amantes do rock. Aqui, o lema sexo, drogas e rock and roll foge da glamourização didática e habitual.

O rock é um pano de fundo cultural vibrante. O principal é a existência de brasileiros que, na passagem dos anos 1980 para os anos 1990, estavam vivendo excessos ou passando por descobertas artísticas e amorosas.

Nessa construção, as drogas e o sexo são elementos naturalizados que deixam sequelas (ora trágicas, ora cômicas) em um ambiente que é, ao mesmo tempo, onírico e realista.

Nicole e a subversão da mulher subjugada

A melhor história do volume é Nicole, principalmente por seus desvios. Se, em algumas obras, os excessos de um homem dominador que subjuga mulheres em sua volta são apenas degraus para seu processo de transformação (ou perversão), em Nicole o foco é justamente no ser subjugado.

De maneira rápida e despudorada, observamos a personagem-título passar por momentos de prazer, desgaste, luto e superação. No final, fica a sensação de que lutar por um pouco de autenticidade não é garantia de felicidade plena, mas de vida intensa, com direito às mais contraditórias sensações e vivências.

Sônia e Alex também tem momentos interessantes, tanto na temática, ao mostrar o efeito das drogas, quanto no estilo, ao lançar mão de uma organização incomum de balões e quadros.

No geral, a narrativa da obra carrega uma leve fragmentação, pois não apresenta os desfechos definitivos dos personagens e nem se alonga sobre acontecimentos importantes, ecoando a fragmentação da vida dos retratados.

Se o vol. 1 de Xampu apresentava um tom alucinante, como se fosse a obra de um discípulo de Rimbaud e Martin Scorsese, no vol. 3 o verbo e a imagem são menos desregrados, ainda que impactantes, graças ao amargo lirismo de Roger Cruz.

Gostou? Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *