As referências cinematográficas e históricas em “Destacamento Blood”

Destacamento Blood, novo filme de Spike Lee, representa o ponto de vista dos militares negros que lutaram na Guerra do Vietnã (ou Guerra Americana, como os vietnamitas se referem). Nessa história, um grupo de veteranos de guerra retorna ao país para recuperar o corpo de seu comandante, além de um tesouro escondido.

O filme original da Netflix, é rico em referências históricas, visto o uso de imagens reais na montagem, e cinematográficas, bebendo na fonte de outras obras sobre guerra.

São muitas as referências de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, em Destacamento Blood. Lançado em 1979, foi um dos primeiros filmes sobre a Guerra do Vietnã, apenas 4 anos após a queda de Saigon. A obra teve forte influência nos filmes de guerra que vieram depois e Spike Lee lhe presta uma grande homenagem.

Em sua primeira noite na cidade de Ho Chi Minh, os veteranos vão a uma boate chamada Apocalypse Now, decorada com pôsteres do filme, que, segundo Spike Lee relatou à Vulture, realmente existe. 

O céu alaranjado por onde voam os helicópteros e a trilha sonora composta por Cavalgada das Valquírias são marcas de Apocalypse Now evocadas por Destacamento Blood. A jornada dos amigos rio abaixo também retoma as aventuras do clássico de Coppola.

A busca pelas barras de ouro feita pelos Bloods, remonta a Tesouro de Sierra Madre, de John Huston. O filme de Spike Lee tem até um personagem parafraseando uma das falas mais famosas do filme de 1948: “Não precisamos de distintivos”.

Além disso, chama a atenção, as semelhanças entre Paul (Delroy Lindo) e Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) ambos personagens cada vez mais entregues à paranóia e a loucura em seus respectivos filmes.

Outra referência está em A Ponte do Rio Kwai, de David Lea, sobre prisioneiros de guerra britânicos que são forçados a construir uma ponte sobre o rio homônimo para seus captores japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. “Madness! Madness!”, a frase em comum com Destacamento Blood, sai da boca do major Clipton (James Donald).

Em comum, estes filmes têm o seu assunto central: a destruição sem sentido causada pela guerra, assim como a perda da sanidade como resultado para os envolvidos nos conflitos.

As semelhanças entre o personagem de Destacamento Blood, Stormin’ Norman (Chadwick Boseman) e o idealista Sgt. Elias K. Grodin, vivido por Willem Dafoe, em Platoon também são perceptíveis.

Os filmes Rambo II: A Missão de 1985, protagonizado por Sylvester Stallone, e o de Chuck Norris, Braddock: O Super Comando, de 1984, são alvos da ironia dos Bloods.

Comparar a história de veteranos reais com personagens “tentando salvar prisioneiros de guerra imaginários” é no mínimo bizarro.

Ao falar sobre a maneira que Hollywood representa a guerra, Otis diz “eu seria o primeiro a assistir um filme sobre heróis reais de guerra”, citando como exemplo Milton L Olive III, que tinha 18 anos e em 22 de outubro de 1965, pulou sobre uma granada, salvando a vida de seus companheiros. O militar recebeu postumamente a Medalha de Honra do Vietnã, se tornando o primeiro negro a receber tal honraria.

Uma vasta pesquisa para um filme exuberante

Spike Lee contou em entrevista ao IMDB que é fascinado por história, sua matéria preferida na escola. Para pesquisar sobre Destacamento, ele leu cada livro e cada documentário que encontrou pela frente. Uma montagem de fatos históricos relacionados ao conflito do Vietnã, os protestos contra e o movimento pela libertação negra formam a abertura do filme.

Um dos vídeos em destaque é a entrevista com o boxeador Muhammad Ali, grande opositor à guerra do Vietnã.

Minha consciência não me permite atirar em um irmão, gente de pele mais escura, ou pobre e famintos em nome dos Estados Unidos. Por que atiraria neles? Nunca me chamaram de “crioulo” nem me lincharam. Não me atacaram com cães nem roubaram minha nacionalidade.

Muhammad Ali

Ali era muçulmano devoto e foi condenado por evasão de armas (não cumprir uma obrigação imposta pelo governo de servir em suas forças militares). Por isso foi destituído de seu título e suspenso do boxe até a Suprema Corte anular a decisão quatro anos depois.

Entre as imagens também estão a desses dois atletas no pódio durante os Jogos Olímpicos de 1968. Smith e Carlos, que conquistaram, respectivamente, as medalhas de ouro e bronze nos 200 metros de corrida, ergueram os punhos, usando luvas pretas, a saudação dos Panteras Negras, durante a exibição do hino nacional do Estados Unidos da América – um ato de protesto pelas vidas negras e em solidariedade com seus irmãos e irmãs que voltaram da guerra graças ao Projeto Olímpico para os Direitos Humanos.

A sequência de abertura inclui Kwame Ture, então conhecido como Stokely Carmichael, primeiro líder do Comitê de Coordenação Não-Violenta de Estudantes, depois “primeiro ministro honorário” dos Panteras Negras. Também Angela Davis, professora da UCLA, autora e palestrante influente e feminista marxista; e Bobby Seale, ativista e co-fundador do Partido dos Panteras Negras.

Outra figura marcante no filme é Hồ Chí Minh. O vietnamita liderou o país à vitória na guerra contra os EUA, mas sua luta pela pelo pelo do Vietnã vem de longa data: Hồ batalhou contra o colonialismo francês e é um dos grandes responsáveis pela independência e integração do Vietnã sob o regime comunista. Morreu seis anos antes da Guerra do Vietnã acabar, em 1969, vítima de um ataque cardíaco, mas seus ensinamentos de guerrilha continuaram influentes até a vitória vietcongue em 1975.

Hồ Chí Minh

Entre as imagens mais horripilantes da montagem estão o conhecido vídeo e a foto do chefe da Polícia Nacional do Vietnã do Sul executando sumariamente Nguyễn Văn Lém, um prisioneiro algemado, nas ruas de Saigon durante a Ofensiva do Tet em 1968. As cenas chocantes, e a fotografia (tirada por Eddie Adams), publicada nas primeiras páginas de vários jornais de destaque, “mudou o curso da Guerra do Vietnã”, segundo o New York Times.

Outra foto importante, que também aparece na abertura, foi tirada pelo fotógrafo Nick Ut em 8 de junho de 1972. Um avião do Vietnã do Sul lançou bombardeio de napalm sobre a vila de Trảng Bàng, matando quatro moradores e crianças, ferindo várias outras, inclusive uma criança de 9 anos Phan Thị Kim Phúc, cujas roupas foram queimadas pelo ataque de fogo. Ut ganhou o prêmio Pulitzer pela foto, que, segundo a CNN, “comunicou os horrores da guerra e contribuiu para o crescente sentimento anti-guerra nos Estados Unidos”.

O apelido dado pelos veteranos a Donald Trump, presidente do falso bico de papagaio (fake bone spurs), vem do fato de que aos 22 anos, na época da Guerra do Vietnã, o médico Larry Braunstein escreveu um diagnóstico de esporões nos calcanhares para livrar Trump dos serviços militares. O New York Times descobriu que Braunstein era inquilino do senhor Trump,  Fred C. Trump.

Em seu discurso inspirador aos Bloods, Stormin ‘Norman relata que o primeiro a morrer pela bandeira americana foi um homem negro. Crispus Attucks, um homem negro da marinha, foi um dos cinco homens que morreram no massacre de Boston em 5 de março de 1770, quando soldados britânicos dispararam contra a multidão.

O comandante do grupo ainda reivindica o ouro que eles estão transportando em nome de “todos os irmãos e irmãs roubados da Mãe África para Jamestown Virgínia, em 1619”. Aquele foi, de fato, o ano em que os primeiros africanos escravizados chegaram a Point Comfort, na colônia britânica da Virgínia.

Discursos poderosos

Destacamento Blood é finalizado com o discurso de Martin Luther King na igreja Riverside em Nova York em que ele condena a guerra do Vietnã e apresenta um plano em 5 pontos para acabar com o conflito. A mídia contemporânea não respondeu bem a isso. Como descrito no filme, um ano depois do discurso, King foi assassinado.

Outro fato histórico entrelaçado em flashbacks de Destacamento Blood: o assassinato de Martin Luther King Jr. em abril de 1968. O acontecimento está entre os recados encaminhados via rádio, por Hanói Hannah, aos soldados negros. Aconteceram protestos durante abril e maio em Baltimore, Kansas City, Chicago, Detroit, Nova York e Washington, DC. “Seu governo envia 600 mil soldados para esmagar a rebelião”.

“Negros são 11% da população do EUA, mas nas tropas aqui no Vietnã são 32%.”, provoca a representante da parte Norte do Vietnã, sobre a injustiça de negros servirem mais que os americanos brancos que os mandaram para o combate.

Trịnh Thị Ngọ, também conhecida como Hanoi Hannah, foi uma apresentadora de rádio vietnamita que fazia transmissões na Rádio Hanoi em inglês do Vietnã do Norte direcionadas a tropas dos Estados Unidos. 

Hanoi Hannah

Uma curiosidade interessante é que as cenas de flashback foram filmadas em 16 mm para imitar imagens do noticiário dos anos 60 e 70. O diretor de fotografia de Destacamento Blood, Newton Thomas Sigel contou que “O Vietnã foi a primeira guerra que foi realmente televisionada e foi filmada predominantemente com 16 mm”. Através desse formato que a guerra foi percebida de fora.

Assista também a nossa análise do filme no YouTube:

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